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Os genes BRCA: O que é o exame realizado pela atriz Angelina Jolie?

Há alguns anos atrás a atriz Angelina Jolie se submeteu à uma mastectomia bilateral profilática e criou um furor mundial a respeito de sua decisão. O motivo de tal decisão foi que ela atestou em um exame uma mutação no gene BRCA1 e decidiu retirar as mamas para evitar complicações futuras. Mas do que se trata os genes BRCA1 e BRCA2?

O câncer mais comum entre as mulheres de raça branca é o de mama, com ocorrência estimada em 10% dos casos de câncer notificados no mundo. Frequentemente a primeira manifestação clínica identificável é um nódulo duro e indolor.

A mulher pode identificar esse nódulo com um autoexame simples, apalpando a mama, observando a retração do mamilo ou, mais raramente, observando uma secreção de sangue. A partir de achados do autoexame e do exame clínico inicial, o processo diagnóstico pode exigir exames como a mamografia e a biópsia. 

A detecção precoce do câncer de mama é crítica para o sucesso do tratamento, por isso o autoexame e o acompanhamento médico periódico são essenciais nesse monitoramento. Exames laboratoriais de última geração tem sido propostos para acessar a probabilidade de desenvolvimento de câncer de mama. Entre estes exames, ensaios que identificam mutações nos genes BRCA 1 e BRCA 2 são importantes marcadores de predisposição para o desenvolvimento de câncer de mama, além de tumores de ovário, câncer de próstata e de intestino grosso. 

Aproximadamente 20% dos casos de câncer de mama familiar estão associados a um dos genes de susceptibilidade hereditária para câncer de mama e ovário, BRCA1 e BRCA2. Entre as mulheres em geral, a chance de desenvolver uma mutação é de, aproximadamente, 1 para 500. Essa probabilidade pode aumentar para aproximadamente 12% a 16% em famílias de alto risco, com três ou mais casos de câncer de mama ou ovário

O que são os genes BRCA1 e BRCA2?

O BRCA1 e BRCA2 são genes que todos nós temos, cuja função é impedir o surgimento de tumores através da reparação de moléculas de DNA danificadas. O BRCA1 e o BRCA2 são, portanto, genes que nos protegem do aparecimento de cânceres. Quando um desses genes sofre uma mutação, ele perde sua capacidade protetora, tornando-nos mais susceptíveis ao aparecimento de tumores malignos, nomeadamente câncer de mama, câncer de ovário e câncer de próstata.

O câncer é uma doença que surge quando uma célula de um órgão ou tecido sofre mutação, perde suas características básicas e passa a se multiplicar de forma descontrolada, espalhando-se pelo corpo. O câncer surge habitualmente quando o DNA da célula sofre uma lesão.

Como agressões ao DNA celular ocorrem a toda hora, como nos casos de exposição à radiação solar, às toxinas no ar ou nos alimentos, contato com vírus, consumo de drogas (lícitas ou ilícitas), etc., se o nosso organismo não tivesse mecanismos de defesa, todos nós teríamos câncer precocemente. Entre os vários mecanismos contra o surgimento de tumores, estão os anti-oncogenes, genes responsáveis por reparar as lesões do DNA. O BRCA1 e BRCA2 são dois exemplos da família dos anti-oncogenes.

Quando os anti-oncogenes BRCA1 ou BRCA2 sofrem mutação – e já foram identificadas mais de 1000 mutações distintas -, eles perdem a capacidade de suprimir o surgimento de tumores, deixando o indivíduo mais exposto ao desenvolvimento de cânceres, principalmente os cânceres de mama e ovário. A razão pela qual as mutações no BRCA1 e BRCA2 predispõem o desenvolvimento preferencialmente de tumores da mama e do ovário ainda não está esclarecida.

O gene BRCA1 ou BRCA2 mutante pode ser passado de uma geração para outra, o que explica a existência de famílias com história de câncer de mama ou ovário em vários dos seus membros. Atualmente já existem testes para identificar a presença de mutações nestes dois genes, servindo para identificar precocemente as mulheres mais susceptíveis aos cânceres de mama e ovário.

Cabe aqui salientar que esta mutação não é muito comum, acometendo apenas cerca de 0,1% da população.

Risco de Câncer

As mulheres com mutações BRCA1 e BRCA2 têm riscos significativamente elevados de câncer de mama e de câncer de ovário. O risco de câncer de mama é de 50 a 85% e o de câncer de ovário entre 15 a 45%. Quanto mais tempo a mulher vive, maior será o seu risco de ter câncer. Por exemplo, praticamente todas as mulheres com mutação destes genes que vivem até 90 anos já terão tido pelo menos um episódio de câncer de mama ao longo da sua vida. Há também um risco aumentado de um segundo diagnóstico do câncer de mama, ou seja, a mulher com mutações do BRCA1 e BRCA2 tem alto risco de ter um novo câncer de mama, mesmo que tenha conseguido se curar de um câncer prévio.

Os homens portadores dos genes BRCA1 ou BRCA2 mutantes também têm um risco aumentado de câncer de mama, mas em proporções bem menores que nas mulheres, cerca de 10% apenas. Por outro lado, o risco de câncer de próstata é até 5 vezes maior para portadores de mutações no gene BRCA2, e 2 vezes maior para as mutações do gene BRCA1.

Há outros cânceres relacionados aos genes BRCA1 ou BRCA2 mutantes, mas a frequência é bem menor. Exemplos são os cânceres de pâncreas, cólon, colo do útero, trompas, vias biliares e melanoma.

A relação do câncer de mama e os genes BRCA1 e BRCA2

De todos os cânceres relacionados às mutações dos genes BRCA1 ou BRCA2, o câncer de mama é claramente aquele com relação mais íntima. Porém, como a mutação do BRCA1 ou BRCA2 está presente em apenas 0,1% da população, a imensa maioria dos casos de câncer de mama ocorre em mulheres sem mutações destes genes. Só conseguimos identificar mutações dos genes BRCA1 ou BRCA2 em cerca de 5 a 10% de todos os casos de câncer de mama.

Resumindo:
1- a grande maioria das mulheres com câncer de mama não tem mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2.
2- a grande maioria das mulheres com mutação dos genes BRCA1 ou BRCA2 terá câncer de mama em algum momento da vida.

Só como comparação, em média, 12 em cada 100 mulheres na população geral terão câncer de mama ao longo da sua vida, enquanto que nas mulheres com mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 esta taxa é de 60 para cada 100 mulheres.

Quando se deve pesquisar a mutação genética?

Como apenas 0,1% da população possui os genes BRCA1 ou BRCA2 defeituosos não é prático nem economicamente viável sair pesquisando o gene indiscriminadamente em todo mundo.

A existência de dois familiares com câncer de mama não é sinônimo de haver uma mutação genética herdada. A maioria das pessoas ou famílias com câncer de mama não têm mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2. Para se pensar na mutação e, consequentemente, na pesquisa dos genes defeituosos, algumas características devem estar presentes:

  • Diagnóstico de câncer de mama ou ovário em 3 ou mais membros da família.
  • Diagnóstico do câncer de mama antes dos 50 anos de idade em pelo menos um membro da família.
  • Pessoas com 2 episódios distintos de câncer de mama (não estamos falando em recidiva do primeiro tumor, mas sim em cura e surgimento posterior de um novo câncer).
  • Familiares próximos com câncer de mama e câncer de ovário.
  • Câncer de mama em homens.
  • Câncer de mama nas duas mamas.
  • Paciente com câncer de mama e vários familiares com outros tipos de câncer, como pâncreas, próstata ou cólon.

As sociedades médicas não recomendam que crianças façam o teste genético para o BRCA1 e BRCA2, mesmo que haja história familiar sugestiva, porque o risco de a criança desenvolver o câncer associado a essa anomalia é muito baixo. Quando adultas, elas poderão optar por fazer ou não a pesquisa genética.

Os genes BRCA1 e BRCA2 estão envolvidos no reparo do DNA e alguns pesquisadores têm sugerido que as células cancerosas com essas mutações podem ser mais sensíveis aos agentes antineoplásicos que atuam diretamente no DNA, como a cisplatina.

Se o resultado dos exames indicar a presença de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, a paciente deverá ser esclarecida sobre o quadro e, dependendo da sua opção, o médico poderá adotar uma conduta de observação e realização de exames clínicos e de imagens com a frequência indicada para aquela mutação gênica ou, então, a cirurgia profilática na mama e ovários. Chama-se cirurgia profilática aquela que é realizada sem que haja a comprovação do câncer nem na mama nem nos ovários.

 

Fonte:

https://www.mdsaude.com/ginecologia/cancer-de-mama-brca/

http://www.grupoghanem.com.br/brca-o-gene-do-cancer/

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Sobre o autor

Felipe Tostes

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