As Doenças do Comportamento Alimentar (DCA) sao cada vez mais uma patologia psiquiátrica emergente. Segundo a classificação de Diagnostic and Statitical Manual of Mental Disorders – IV, de 1994, estas patologias podem ser divididas em 3 grandes categorias: Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa e Perturbaçoes do Comportamento Alimentar. Anorexia Nervosa pode ainda ser subdividida nos Tipos Restritivos e Compulsivo/Purgativo, enquanto a Bulimia Nervosa pode ser Tipo Purgativo ou Não Purgativo.

Os Disturbios Alimentares afetam de forma particular os indivíduos do sexo feminino entre a puberdade e o inicio da idade adulta. A diminuição do aporte nutricional tem um enorme impacto a nível sistêmico, causando uma situação de estresse para todo o organismo. Como tal, compromete também o funcionamento normal endócrino e metabólico, o que se traduzirá na alteração de uma série de parâmetros clínicos e biológicos, tanto a curto como a longo prazo.

Ao longo das ultimas décadas, a midia desempenhou um papel fundamental na divulgação da doença e suas consequências, alertando a opinião publica para o problema real e grave que é uma perturbação do comportamento alimentar. Talvez por afetar grande parte dos adolescentes ou porque quando nao devidamente acompanhada atinge proporções dramáticas, os distúrbios alimentares sao hoje temidos por quase todos os pais de adolescentes.

Todo o organismos é afetado pelo estado de privação nutricional auto induzido e as alterações sao fruto e consequência da interação de múltiplos fatores. As DCA envolvem um aspecto muito aplo de alterações gastrointestinais, neurológicas e endócrinas, refletindo-se numa grande variedade de complicações medicas. Os casos de má nutrição severa poderão mesmo culminar em falência mutipla dos órgãos.

É comum a coexistência de Anorexia Nervosa e episódios bulímicos, bem como o inverso, ou mesmo a transição de Anorexia para Bulimia e vice-versa. Tal permite concluir que ambas as doenças partilham fatores de risco e de vulnerabilidade. Está amplamente difundido o conceito que o “culto da magreza” nos países ocidentais é causa da doença. No entanto, ainda que a pressão social seja um fator muito importante – principalmente nas jovens ainda em formação – a incidência de AN e BN na população é significativamente menor que a preocupação em “manter-se magra”. Além disso, existem descrições de casos de AN que remontam a séculos anteriores, quando os estereótipos de beleza eram consideravelmente diferentes dos atuais. As Perturbações do Comportamento Alimentar desenvolvem-se frequentemente durante a adolescência ou inicio da idade adulta, em proximidade com a puberdade. Esta é uma etapa da vida associada a profundas alterações biológicas, psicológicas e sociais, que requerem plasticidade para uma constante adaptação individual.

Existem evidências que apontam para uma contribuição genética na etiologia da Anorexia Nervosa. Estudos em gêmeos revelaram uma concordância significativa entre gêmeos monozigóticos, cerca de 55%, quando comparados com gêmeos dizigóticos. Isso significa que embora a relação familiar seja forte, existem outros fatores envolvidos na gênese da patologia. Atualmente, acredita-se que é a exposição de um individuo geneticamente susceptível a condições psicossociais particulares que precipitam o desenvolvimento da perturbação.

Um outro pensamento sugere que a vulnerabilidade individual é determinada por uma alteração mental que predispõe ao desenvolvimento e manutenção de DA, não só a AN mas também a BN. A dita alteração mental tem sido amplamente discutida, havendo diversas opiniões. As desordens psiquiátricas mais comumente implicadas são a depressão, ansiedade e distúrbio obsessivo – compulsivo (OCD). Alguns historiadores ligaram a Bulimia Nervosa à disfunção afetiva, baseando-se na similaridade da historia familiar, quadro psicológico e resposta aos ADT. No entanto, ainda não está totalmente esclarecido se a sintomatologia “depressiva”, frequentemente descrita em todos estes pacientes, é uma resposta típica ao estado de privação nutricional ou uma alteração independente. Existe uma crescente aceitação da hipótese que as alterações neurobiológicas são uma contribuição importante na patogênese da AN e BN. Alterações na regulação dos neuropeptídios do SNC, nomeadamente serotonina, dopamina e noraepinefrina, poderão ter um papel ativo na disfunção de hormonas gonadais, tiróideias, cortisol e GH, presentes nos distúrbios alimentares. Além disso, as vias de regulação da ingestão de alimentos envolvem complicadas relações entre o SNC e os sistemas periféricos (estimulação gustatória, peptídeo gastro-intestinal e aferentes vagais). Pacientes com AN malnutridas demonstram concentrações diminuídas dos vários peptídeos envolvidos nestas vias de sinalização. No entanto, permanece ainda por esclarecer se estas alterações são causa ou consequência da privação alimentar.

Nas ultimas décadas, a prevalência dos Distúrbios Alimentares nos países industrializados tem vindo a aumentar de forma preocupante. Sendo definidas como doenças de causa multifatorial, permanece ainda por esclarecer os fatores envolvidos na sua patogênese e a sua contribuição para as manifestações clínicas. São diversas as complicações medicas que acompanham as doenças do comportamento alimentar e resultam essencialmente do jejum prolongado, perda de peso e/ou métodos purgativos utilizados. As anomalias do eixo supra-renal, tireoide, gonadal e metabolismo de nutrientes são essencialmente adaptativas e visam minimizar as consequências da privação nutricional. Os pacientes, principalmente aqueles com Anorexia Nervosa, podem apresentar hipercortisolismo, disfunção tireóidea, amenorreia, osteopenia e osteoporose, diversas alterações hidro-electrolíticas e dislipidémia. Aparentemente, estas adaptações endócrinas e metabólicas reflectem um estado generalizado de disfunção hipotalâmica.

A maioria destas anomalias é reversível com reabilitação nutricional e recuperação ponderal. É de salientar, contudo, que podem persistir sequelas a longo prazo, inclusive baixa estatura, osteoporose e até infertilidade. A instituição precoce do tratamento adequado é fundamental para evitar consequências graves. A psicoterapia é a base de toda a terapêutica, associada à reabilitação nutricional e à manutenção de um peso “saudável”, pois é essencial consciencializar os pacientes da sua doença e ensiná-los a lidar com os alimentos de forma equilibrada. Na maioria dos casos, no entanto, o tratamento é longo e difícil.

Devido à complexidade que reveste as Doenças do Comportamento Alimentar, justifica-se a realização de estudos mais pormenorizados, debruçando-se sobre todas as diferentes dimensões patológicas – a psiquiátrica, a neurológica e a fisiológica. Talvez assim, num futuro próximo, seja possível esclarecer a etiologia primária das perturbações do comportamento alimentar e para assim se poderem elaborar novos modelos de tratamento e, sobretudo, definir estratégias de prevenção verdadeiramente eficazes.

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Fonte: PEREIRA, J. S. L. Alterações Endócrinas e Metabólicas nas Doenças do Comportamento Alimentar. Faculdade de Medicina de Coimbra. 2010. 

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