O que é a Ciência do Mindfulness?

Aos cinco anos o meu filho tinha problemas para dormir. Apesar de sua pouca idade ele costumava me perguntar: “Quando seu corpo quer dormir, mas a sua cabeça não, como se faz para ter sono?”

Algumas vezes ele ficava acordado até as dez da noite. Logo, logo ficava exausto. E eu também. Ele não parava quieto na cama, acordado por todos os pensamentos malucos que ficavam rodando em sua cabeça: sobre o Tim, que não queria mais brincar com ele; sobre o peixinho dourado boiando de barriga para cima no seu aquário; sobre alguém embaixo da cama que certamente iria matá-lo. Exercícios de relaxamento, histórias, banho quente, uma ordem irritada para “ir dormir como todo mundo” — nada funcionava. Foi quando percebi que, se ele prestasse menos atenção aos pensamentos preocupantes que pipocavam sem parar em sua cabeça e lentamente desviasse a atenção da cabeça para a barriga, ele conseguia, com o tempo, se acalmar. Em sua barriga não haviam pensamentos, apenas sua respiração, que a fazia se mover para cima e para baixo, lentamente, em expansão e retração. Um movimento suave. Um movimento sedante. Um movimento que lentamente o fazia adormecer.

 

Nos últimos anos, os efeitos do mindfulness sobre o cérebro têm sido amplamente investigados por neurocientistas e, até à data, estes têm confirmado aquilo que os praticantes de mindfulness sempre souberam — nomeadamente, que esta prática produz muitos benefícios, e que esses benefícios são reais.

Embora o mais importante aqui seja apenas o fato de que praticar mindfulness melhora a sua vida, muitas pessoas (incluindo neurocientistas) sentem que a sua pratica melhora e é mais incentivada pelo conhecimento da forma de envolvimento do cérebro na mesma. Seguem-se, por isso, os principais aspectos, tal como são conhecidos no estádio atual, do modo como o seu cérebro interage com a sua pratica de mindfulness.

Sistema de pensamento. A parte do cérebro que mais recentemente evoluiu foi o córtex cerebral, que é a superfície que vemos quando olhamos para uma imagem do cérebro. Uma parte muito importante do córtex, cuja atividade aumenta quando se pratica mindfulness, é o córtex pré-frontal, situado atrás da fronte. É aí que você faz planos, imagina coisas, toma decisões e verifica se aquilo que está a planear fazer é socialmente aceitável.

Outra coisa que o mindfulness faz é reforçar a influencia do córtex pré-frontal sobre o centro emocional (sistema límbico), sendo essa uma das formas pelas quais se pode tornar menos reativo, passando a ter uma visão mais equilibrada. Se a influencia do córtex pré-frontal for fraca, você terá mais tendência para ser arrebatado pelas emoções, incluindo, em certos casos, por aquelas que podem desencadear ansiedade e depressão. Expandindo a influencia do córtex pré-frontal de várias formas ao longo do tempo, o mindfulness poderá reduzir essa reatividade e suscetibilidade a tais condições.

Empatia e ligação. O mindfulness também pode aumentar a atividade da ínsula, uma área do cérebro envolvida nos sentimentos de empatia — ou seja, compreender como se sente outra pessoa e ser capaz de ver o mundo através dos olhos dessa pessoa. Trata-se de uma aptidão importantíssima, tanto nas nossas relações humanas mais íntimas como no local de trabalho. A ínsula também desempenha um papel nos sentimentos de amor, o que poderá explicar por que razão as pessoas que praticam mindfulness sentem uma maior sensação de ligação e de cordialidade para com os outros. A ínsula também associa a consciência dos seus sentimentos emocionais à consciência das suas sensações físicas. Isso, por sua vez, deve fortalecer a sua sensação de «estar vivo». Uma maior atividade desta importantíssima estrutura cerebral também aumenta a sua autoconsciência, o que poderá ajudá-lo a desenvolver e a manter a presença de espírito num mundo altamente movimentado e socializado.

Emoções positivas. As pessoas que praticam mindfulness durante algum tempo (no mínimo, durante oito semanas, de acordo com um estudo) experimentam um acréscimo de atividade do lado esquerdo de uma parte do cérebro chamada córtex cingulado anterior. A ativação dessa estrutura está associada a emoções positivas e a uma atitude também positiva. Geralmente, a prática do mindfulness permite que as pessoas se sintam melhor com o passar do tempo, e a zona cortical anterior desempenha um papel nesse sentido. Este efeito também contribui para o valor do mindfulness na redução do risco de recaída na depressão.

Mudanças de perspectiva. As regiões do cérebro associadas às nossas mudanças de perspectiva são reforçadas pela prática do mindfulness. Um exemplo disso poderá ser ver uma situação do ponto de vista de outra pessoa (o desenvolvimento da ínsula, mencionada acima, está envolvido aqui). Outra mudança vê-se numa capacidade crescente de desviarmos a nossa atenção para a nossa própria respiração ou para qualquer outro foco, a fim de não sermos arrebatados por reações emocionais. Por outras palavras, à medida que se for exercitando uma e outra vez na tomada de consciência da sua respiração ou do seu corpo, estará a treinar gradualmente a sua atenção, tornando-se capaz de focar mais rapidamente a sua atenção, e por períodos de tempo mais longos. Essa melhoria da atenção está associada a uma atividade aumentada do córtex pré-frontal lateral, sendo detectada em pessoas que praticam mindfulness.

Assim, através do mindfulness será mais fácil para si tomar consciência de todos os sons e atividades à sua volta, mas se precisar de focar a sua atenção em qualquer coisa específica — como o trabalho que tem em mãos —, poderá fazê-lo de forma muito eficaz devido a essa capacidade aumentada de prestar atenção.

É fácil sentir-se fascinado pela investigação sobre o mindfulness e o cérebro, mas o que importa sobretudo é que pratique mindfulness na sua própria vida. No entanto, sabendo que estas mudanças tão reais que eu descrevi foram registadas no cérebro de praticantes de mindfulness constitui um incentivo adicional para a prática da mesma. Os benefícios do mindfulness não são apenas uma questão de opinião — já foram cientificamente comprovados. Por isso, se achar a prática de mindful­ness difícil ou se por vezes lhe custar praticá-la, lembre-se que os frutos são reais — não são apenas «mentais».

Caso deseje se aprofundar neste assunto, a literatura sobre Mindfulness é vasta, então aproveite.

Boas leituras!

Fonte: Mindfulness no dia a dia.

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